Esta é aquela época do ano...
Em que as pessoas se tornam momentaneamente e circunstancialmente solidárias....eu digo momentâneo e circunstancial porque é a solidariedade festiva....
Aos "invisíveis" da rua... aos que todos vêm e teimam em ignorar....aos que tantas vezes atravessam para o outro lado para não lhes passar ao lado.... ninguém lhes fala...eles tão pouco se metem com alguém...
Nos becos ou entre aconchegos de paragens de autocarro e entradas de prédios devolutos....lá estão eles....bem visíveis....unidos pela mesma causa...porque se entendem....porque se apoiam...
Dormem em caixotes de papel, cobertos por cobertores velhos e sujos, tentam isolar-se deste frio gelado que lhes atravessa o corpo quase dormente e insensível às alterações atmosféricas....não é a chuva que os incomoda.....é a indiferença....
Há um jardim aqui perto de mim onde costumo levar o meu mini.....as crianças quando não são instigadas a viver o preconceito logo cedo, não se coíbem de falar com quem os trata bem....e com carinho...
Quando lá chego, alguns já os conheço, mas vão variando....na certa porém que ao entrarmos no parque todos o cumprimentam....
-Então?? Estás aqui hoje?? hoje não vens com a avó??
Pois...a minha mãe é daquelas pessoas que tem o coração maior que ela....não mede o bem pela roupa que usam.....ou pelo perfume que se sente...
Levantam-se imediatamente e vão ajudá-lo, empurram-no no baloiço, jogam com ele à bola, seguram-lhe na bicicleta....e por aí....
Mantenho-me a observá-los....não interfiro....é notório que o fazem por bem...o meu mini moço tagarela com aquele sorriso de orelha a orelha....cuja ingenuidade não permite que o preconceito interfira no bem de brincar....
Ao fim de um tempo, vêm sentar-se ao meu lado.....puxam conversa comigo....não me pedem dinheiro, nem comida....apenas querem conversar...
"Dizem-me em tom de defesa que o conhecem....e não lhe fariam mal...gostam de brincar com ele....gostam das crianças.....Eu sei....sinto-o..."
Confidenciam-me da saudade.....da saudade que sentem dos filhos....e dos netos....fazem-no de lágrima no olho.....SENTEM sim...não são insensíveis, são apenas invisíveis...
Alguns perdem-se na vida, já apanhei licenciados e com uma vida noutro país, caíram cá à procura de um futuro melhor para os seus....mas a queda foi maior que o sonho....choram....choram a saudade...
Um dia destes, sentado amimalhado no meu colo, entre cocegas e beijos, aproximou-se um Senhor que vive aqui na rua...nos seus 50 e tal anos..veio de Angola....o Sócio...é como carinhosamente trata o meu filho....
Olhava-nos e após os cumprimentos habituais.....limpou os olhos.....
««« Estou a ver-vos e apenas a imagem da minha Mãe me vem à cabeça.....aquela minha Mãe....aquela minha senhora linda..e o carinho que ela me dava.... tenho saudades de correr naquelas terras descalço, ouvir a minha mãe chamar e correr-lhe para o colo!»»
Naquele instante, abracei ainda mais forte o meu mini.....
Sim têm fome...e frio.... mas também têm sentimentos....e SAUDADES!!
São os Invisíveis....